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Atualização penal · Teoria da prova

Provas: o que entra, o que se desentranha

Do art. 155 ao Tema 977 do STF. Como se ataca uma prova ilícita na ordem certa, onde a cadeia de custódia costuma se romper e por que o reconhecimento fora do art. 226 não se salva com ratificação em juízo.

Atualizado 14 de setembro de 2026 Reflete até o Tema 1.258 do STJ e o Tema 977 do STF Revisão Mateus França Marques
“

A petição que funciona não afirma que houve quebra da cadeia de custódia. Ela mostra em que elo a identidade do vestígio deixou de ser rastreável.

OS DEZ ELOS DO ART. 158-B 1 reconhecimento 2 isolamento 3 fixação 4 coleta 5 acondiciona. 6 transporte 7 recebimento 8 processa. 9 armazena. 10 descarte Ficha de acompanhamento de vestígio art. 158-D, §4º — a cada rompimento de lacre: nome, matrícula, data, local, finalidade, novo lacre. Registro de acessos à central art. 158-E, §3º — identificação de todos que acessaram o vestígio, com data e hora. Estes dois documentos quase nunca estão nos autos. Requeira os dois por escrito. A resposta costuma ser a própria tese.
Os dez elos do art. 158-B e os dois documentos que quase nunca existem. A orientação predominante do STJ não é a nulidade automática: examina-se se a falha compromete a confiabilidade do elemento.

A regra que governa tudo — art. 155

Art. 155 — texto integraltexto integral

Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas.

Parágrafo único. Somente quanto ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil.

Os destaques em negrito são deste site, para leitura. O texto oficial não tem grifos.

CPP — redação da Lei 11.690/2008

O artigo tem uma palavra decisiva: exclusivamente. O inquérito não é imprestável — ele não pode ser a única base. A tese eficaz, portanto, não é “a prova é do inquérito”; é mostrar que o que sobrou em juízo, isolado do inquérito, não sustenta a condenação. Isso se faz elemento por elemento, e é exatamente o que a sentença mal fundamentada não faz.

As três ressalvas — provas cautelares (a interceptação), não repetíveis (o laudo de local) e antecipadas (a produção do art. 225) — são as que nascem fora do contraditório porque não poderiam esperar. Fora delas, o que vem do inquérito precisa ser refeito em juízo.

1. Prova ilícita — art. 157

Art. 157 — texto integraltexto integral

Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais.

§ 1º São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das primeiras.

§ 2º Considera-se fonte independente aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto da prova.

§ 3º Preclusa a decisão de desentranhamento da prova declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão judicial, facultado às partes acompanhar o incidente.

Os destaques em negrito são deste site, para leitura. O texto oficial não tem grifos.

CPP — redação da Lei 11.690/2008

Como se ataca, na ordem

  1. Nomeie a norma violada — constitucional ou legal. “Prova ilícita” sem a norma é adjetivo.
  2. Peça o desentranhamento, não só a desconsideração. O art. 157 manda desentranhar.
  3. Mapeie a derivação — o que só existe porque aquilo existiu. É o §1º, e é onde o pedido ganha alcance.
  4. Antecipe a fonte independente. A acusação vai invocá-la; o §2º exige que ela por si só conduziria ao fato “seguindo os trâmites típicos e de praxe”. Mostre que, sem a prova ilícita, ninguém teria olhado para lá.
  5. Requeira a inutilização do §3º, com acompanhamento do incidente.

2. Cadeia de custódia — arts. 158-A a 158-F

Dez etapas. A impugnação eficaz mira duas.

O art. 158-B define as etapas em dez incisos: reconhecimento, isolamento, fixação, coleta, acondicionamento, transporte, recebimento, processamento, armazenamento e descarte. O art. 158-A, §2º, responsabiliza pela preservação o agente público que primeiro reconhecer o vestígio.

Os dois documentos que quase nunca existem

Art. 158-D, §4º — a cada rompimento de lacre, registro na ficha de acompanhamento de vestígio, com nome, matrícula, data, local, finalidade e dados do novo lacre. Art. 158-E, §3º — identificação de todos que acessaram o vestígio na central de custódia, com data e hora. Requeira os dois por escrito. A resposta costuma ser a própria tese.

O art. 158-C, §2º, tipifica como fraude processual a entrada em local isolado ou a remoção de vestígio antes da liberação pelo perito. Os lacres têm numeração individualizada (art. 158-D, §1º) e o recipiente só é aberto pelo perito que fará a análise (§3º).

O efeito da quebra

Não é nulidade automática: no HC 653.515-RJ (6ª Turma, Rel. p/ acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 23/11/2021), o STJ fixou que a quebra não implica, de modo obrigatório, a inadmissibilidade ou a nulidade da prova — examina-se se a falha compromete a confiabilidade do elemento — se ainda é possível assegurar que o que foi periciado é o que foi colhido. Por isso a petição que funciona não afirma “houve quebra da cadeia”; ela demonstra em que elo a identidade do vestígio deixou de ser rastreável, e o que naquele intervalo poderia tê-lo alterado.

3. Reconhecimento de pessoas — art. 226

Art. 226 — texto integraltexto integral

Art. 226. Quando houver necessidade de fazer-se o reconhecimento de pessoa, proceder-se-á pela seguinte forma:

I – a pessoa que tiver de fazer o reconhecimento será convidada a descrever a pessoa que deva ser reconhecida;

II – a pessoa, cujo reconhecimento se pretender, será colocada, se possível, ao lado de outras que com ela tiverem qualquer semelhança, convidando-se quem tiver de fazer o reconhecimento a apontá-la;

III – se houver razão para recear que a pessoa chamada para o reconhecimento, por efeito de intimidação ou outra influência, não diga a verdade em face da pessoa que deve ser reconhecida, a autoridade providenciará para que esta não veja aquela;

IV – do ato de reconhecimento lavrar-se-á auto pormenorizado, subscrito pela autoridade, pela pessoa chamada para proceder ao reconhecimento e por duas testemunhas presenciais.

Os destaques em negrito são deste site, para leitura. O texto oficial não tem grifos.

CPP — redação original, Decreto-Lei 3.689/1941

STJ — Tema 1.258 (REsp 1.953.602)

O procedimento do art. 226 é de observância obrigatória, e não mera recomendação. O reconhecimento feito em desacordo é inválido e não serve de base para condenação — ainda que ratificado em juízo, porque a ratificação carrega a contaminação do ato original.

Na prática, três falhas se repetem e cada uma é autônoma: não houve descrição prévia (inciso I) — o reconhecedor viu antes de descrever; o reconhecimento foi por foto única, no celular do policial, sem pessoas semelhantes (inciso II); e não há auto pormenorizado com duas testemunhas (inciso IV). O art. 227 estende as mesmas cautelas ao reconhecimento de objeto.

4. Prova testemunhal — arts. 202 a 217

Quem é obrigado, quem não é, e o que não se pergunta.

Art.Regra
202Toda pessoa poderá ser testemunha.
203Compromisso de dizer a verdade; qualificação; relações com as partes.
206Podem recusar-se a depor ascendente, descendente, afim em linha reta, cônjuge (ainda que separado), irmão, pai, mãe ou filho adotivo — salvo quando não houver outro modo de obter a prova.
207Proibidas de depor as pessoas que devam guardar segredo em razão de função, ministério, ofício ou profissão, salvo se desobrigadas e quiserem dar o testemunho.
208Não se defere compromisso a doentes e deficientes mentais, menores de 14 anos e às pessoas do art. 206.
210Testemunhas inquiridas separadamente; providenciar-se-á para que não ouçam os depoimentos das outras.
212Perguntas diretamente pelas partes; o juiz indefere as que induzirem a resposta, não tiverem relação ou importarem repetição. Parágrafo único: o juiz complementa, depois.
217Retirada do réu da sala quando sua presença causar humilhação, temor ou sério constrangimento — preferencialmente por videoconferência, e a providência deve constar do termo.
Art. 212 — a ordem importa

A Lei 11.690/2008 inverteu o sistema: as partes perguntam diretamente, e o juiz complementa depois. Juiz que conduz o depoimento inteiro e só ao final passa a palavra inverte a ordem legal. É nulidade relativa — exige protesto imediato em ata e demonstração de prejuízo —, o que significa que só serve se registrada na hora. Como se registra

Art. 210, parágrafo único: antes do início da audiência e durante a sua realização, reservar-se-ão espaços separados para a garantia da incomunicabilidade das testemunhas. Sala única com testemunhas ouvindo umas às outras é violação literal — e verificável.

5. Interceptação telefônica — Lei 9.296/1996

Cabe apenas por ordem judicial, para investigação criminal ou instrução processual penal, e não cabe quando (I) não houver indícios razoáveis de autoria ou participação; (II) a prova puder ser feita por outros meios disponíveis; (III) o fato for punido, no máximo, com detenção (art. 2º).

PontoRegraOnde se ataca
SubsidiariedadeArt. 2º, IIA decisão precisa dizer por que os outros meios não servem. “Complexidade da organização” é fórmula genérica.
Prazo15 dias, renovável por igual período (art. 5º)Renovações sucessivas exigem nova fundamentação a cada uma, com o resultado da anterior. Renovação por cópia é vício.
Encontro fortuitoCrime diverso descobertoAdmitido pela jurisprudência quando há conexão; sem ela, é prova que exige investigação autônoma.
DegravaçãoArt. 6º, §1ºRequeira o áudio integral, não só os trechos selecionados pela acusação. A seleção é da parte, não do juízo.
Cadeia dos áudiosArts. 158-A e ss.Mídia sem lacre, sem hash, sem registro de acesso: mesma lógica do vestígio físico.

6. Prova digital e acesso a dispositivos

STF — ARE 1.042.075, Tema 977 · Plenário, 25 de junho de 2025

A apreensão do aparelho e o acesso aos dados são coisas distintas, e só a segunda tem reserva de jurisdição. Apreendido o celular na forma do art. 6º do CPP ou em flagrante, o acesso ao conteúdo depende de consentimento expresso e livre do titular ou de decisão judicial que, com base em elementos concretos, justifique a proporcionalidade e delimite a abrangência — período, aplicativos, tipo de dado.

Duas ressalvas que decidem casos. No encontro fortuito do aparelho, o acesso para o fim exclusivo de esclarecer a autoria ou identificar o proprietário dispensa consentimento e ordem judicial, bastando justificativa posterior. E a autoridade policial pode, antes da ordem, adotar providências de preservação de dados e metadados.

A tese produz efeitos apenas prospectivos, ressalvados os pedidos formulados por defesas até o encerramento do julgamento — o que significa que a data do acesso, no seu caso, é a primeira coisa a verificar.

Daí decorrem três verificações: houve ordem para o acesso ao conteúdo, além da que autorizou a apreensão? A ordem delimitou o que podia ser acessado — período, aplicativos, tipo de dado —, ou foi uma autorização em branco? E o material foi extraído com preservação de integridade, com registro de hash e cadeia de custódia da mídia?

O mesmo raciocínio se aplica ao acesso a mensagens de aplicativo obtidas por espelhamento, a dados de geolocalização e a registros mantidos por provedores — cada um com sua base legal própria, e nenhum coberto por autorização genérica.

7. Direito ao silêncio e confissão informal

O art. 5º, LXIII, da Constituição garante ao preso o direito de permanecer calado e a assistência da família e de advogado. O art. 186 do CPP manda que o juiz informe o direito de permanecer calado e que o silêncio não importará confissão nem poderá ser interpretado em prejuízo da defesa (parágrafo único).

STJ — AREsp 2.123.334 20/06/2024

O relato do policial sobre confissão feita informalmente na abordagem, sem advertência do direito ao silêncio e sem defensor, não vale como prova. A chamada “confissão informal” não entra pela porta do depoimento do agente.

Na prática, a impugnação se faz em dois passos: (1) demonstrar que a “confissão” não está documentada em termo, mas apenas no depoimento do policial; e (2) verificar se há registro, em qualquer peça, da advertência do direito ao silêncio anterior àquele momento. Não havendo, o conteúdo é imprestável — e o que dele derivou entra no §1º do art. 157.

8. Súmulas que se citam de memória

EnunciadoConteúdo
SV 14Acesso amplo do defensor aos elementos já documentados na investigação.
SV 11Algemas apenas com excepcionalidade justificada por escrito.
Súmula 444/STJÉ vedada a utilização de inquéritos e ações penais em curso para agravar a pena-base.
Súmula 455/STJA decisão que determina a produção antecipada de provas com base no art. 366 do CPP deve ser concretamente fundamentada; o mero decurso do tempo não a justifica.
Súmula 74/STJPara efeitos penais, o reconhecimento da menoridade do réu requer prova por documento hábil.

Da referência à prática

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  • Arts. 155, 157, 158-A a 158-F e 226 transcritos
  • Tema 1.258 do STJ e Tema 977 do STF
  • Os cinco passos de impugnação da prova ilícita
  • Onde a cadeia de custódia costuma romper
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